Transtornos Mentais

  1. HISTÓRICO

As pessoas sempre tiveram a noção sobre o que seria um comportamento normal e o que seria um comportamento desviante. Em diferentes momentos da história, esses comportamentos receberam vários nomes e classificações.

Para os antigos, alguns desses comportamentos eram vistos como sinais de deuses, tanto positivos quanto negativos. Com a influência do cristianismo na cultura ocidental, esses mesmos comportamentos passaram a ser vistos como sendo negativos e influenciados por demônios. A depressão, por exemplo, dizia-se que era influenciada pelo demônio do meio-dia. Essas pessoas eram ou abandonadas por estarem possuídas ou eram levadas para igrejas para serem exorcizadas[1].

No final da Idade Média e início do Renascimento, pessoas com transtornos mentais eram deixadas de lado pela sociedade. Eram chamadas de loucas e muitas vezes trancadas com criminosos para afastar suas influências das pessoas ditas normais[2].

Com o avanço da medicina, passou-se a perceber que as pessoas com distúrbios mentais apresentavam sintomas claros que se repetiam em várias pessoas. Diante disso, essas pessoas foram trancadas em asilos e manicômios para serem estudados e tratados, e a loucura foi reconhecida como doença mental.

Desta forma, surge a psiquiatria moderna no final do século XIX e várias tentativas de tratamento de doenças mentais. Estudiosos como Freud e Carl Jung estudaram a fundo sobre vários transtornos mentais e deixaram sua contribuição para os tratamentos psiquiátricos e para a teoria do inconsciente[3].

O século XX foi repleto de avanços na psiquiatria e na psicopatologia, como ficou conhecida a área de estudos das doenças mentais. Durante a Primeira Guerra Mundial, foi desenvolvida a área da psicometria, ou testes psicológicos. Eles eram utilizados inicialmente para selecionar os melhores soldados e depois para selecionar os melhores empregados para as indústrias[4].

Após a Segunda Guerra Mundial, a Associação de Psiquiatria Americana criou o Manual Estatístico de Doenças Mentais, o DSM, atualmente na quinta edição, bem como a OMS elencou os transtornos mentais em seção própria da sua Classificação Internacional de Doenças, 10ª Revisão, o CID-10.

Por meio das classificações de loucura da medicina e de retardo mental da psicologia, o século XX trouxe muitos estigmas às pessoas que traziam tais rótulos. Atualmente, é consenso a utilização dos termos “transtorno mental” ou “distúrbio mental” para desestigmatizar essas condições psicológicas. Procura-se não mais estigmatizar e marginalizar os enfermos, mas socializa-los e integrá-los à sociedade na medida das possibilidades[5].

Os atuais manuais classificam os transtornos, não as pessoas. Por isso, evita-se utilizar expressões como “o esquizofrênico” ou “o alcoólatra” e utilizam-se termos como “a pessoa com esquizofrenia ou “o paciente que sofre de alcoolismo”[6].

  1. DEFINIÇÃO DE TRANSTORNO MENTAL

Embora nenhuma definição seja capaz de capturar todos os aspectos de todos os transtornos mentais, a Associação Americana de Psiquiatria propõe o seguinte conceito:

“Um transtorno mental é uma síndrome caracterizada por perturbação clinicamente significativa na cognição, na regulação emocional ou no comportamento de um indivíduo que reflete na disfunção dos processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento subjacentes ao funcionamento mental. Transtornos mentais estão frequentemente associados a sofrimento ou incapacidade significativos que afetam atividades sociais, profissionais ou outras atividades importantes. Uma resposta esperada ou aprovada culturalmente a um estressor ou perda comum, como a morte de um ente querido, não constitui transtorno mental. Desvios sociais de comportamento (p. ex., de natureza política, religiosa ou sexual) e conflitos que são basicamente referentes ao indivíduo e à sociedade não são transtornos mentais a menos que o desvio ou conflito seja o resultado de uma disfunção no indivíduo, conforme descrito.”[7]

  1. PSICOPATOLOGIA

A psicopatologia pode ser entendida como o ramo da ciência que trata da natureza essencial da doença mental – suas causas, as mudanças estruturais e funcionais associadas a ela e suas formas de manifestação. Já em uma acepção mais ampla, pode-se definir a psicopatologia como o conjunto de conhecimentos referentes ao adoecimento mental do ser humano. É um conhecimento que se esforça por ser sistemático, elucidativo e desmistificante. Como conhecimento que visa ser científico, não inclui critérios de valor, não aceita dogmas ou verdades a priori[8].

A psicopatologia tem boa parte das suas raízes na tradição médica, que propiciou, nos últimos dois séculos, a observação prolongada e cuidadosa de um considerável contingente de doentes mentais. Em outra vertente, a psicopatologia nutre-se de uma tradição humanística (filosofia, literatura, artes, psicanálise) que sempre viu na alienação mental, no pathos do sofrimento mental extremo, uma possibilidade excepcionalmente rica de reconhecimento de dimensões humanas que, sem o fenômeno doença mental, permaneceriam desconhecidas[9].

Karl Jaspers é muito claro quanto aos limites da psicopatologia: embora o objeto de estudo seja o homem na sua totalidade, os limites da ciência psicopatológica consistem precisamente em que nunca se pode reduzir por completo o ser humano a conceitos psicopatológicos. Em todo indivíduo, oculta-se algo que não se pode conhecer, pois a ciência requer um pensamento conceitual sistemático, pensamento que cristaliza, torna evidente, mas também aprisiona o conhecimento. Assim a psicopatologia sempre perde, obrigatoriamente, aspectos essenciais do homem, sobretudo nas dimensões existenciais, estéticas, éticas e metafísicas[10].

  1. AVALIAÇÃO PSIQUIÁTRICA E DIAGNÓSTICOS

A Avaliação Psiquiátrica é composta pelas seguintes fases[11]:

Entrevista inicial. Realiza-se a anamnese, onde são colhidos todos os dados necessários para um diagnóstico pluridimensional do paciente, o que inclui dados sociodemográficos, a queixa ou o problema principal e a história dessa queixa, os antecedentes mórbidos somáticos e psíquicos pessoais, contendo os hábitos e o uso de substâncias químicas, os antecedentes mórbidos familiares, a história de vida do paciente, englobando as várias etapas do desenvolvimento somático, neurológico, psicológico e psicossocial e, finalmente, a avaliação das intenções familiares e sociais do paciente.

Exame psíquico. É o exame do estado mental atual, realizado com cuidado e minúcia pelo entrevistador desde o início da entrevista até a fase final, quando são feitas outras perguntas.

Exame físico geral e neurológico. Deve ser mais ou menos detalhado a partir das hipóteses diagnósticas que se formam com os dados da anamnese e do exame do estado mental do paciente. Caso o profissional suspeite de doença física, deverá examinar o paciente somaticamente em detalhes; caso suspeite de distúrbioneurológico ou neuropsiquiátrico, o exame neurológico deverá ser completo e detalhado. De qualquer forma, é conveniente que todos os pacientes, mesmo os psiquiátricos, passem por uma avaliação somática e neurológica sumária, mas bem feita.

Exames complementares. Citam-se como exemplos: testes da personalidade e da cognição, exames laboratoriais (exame bioquímico, citológico, hemograma, eletrólitos, exames de neuroimagem (tomografia computadorizada do cérebro, ressonância magnética do cérebro e neurofisiológicos (EEG, potencias evocados etc).

Por meio da avaliação psiquiátrica busca-se chegar ao diagnóstico de transtorno mental do examinado. O diagnóstico ocorre pela presença de sintomas, que são manifestações únicas e desviantes do comportamento dito normal. Um grupo de sintomas pode ser classificado como uma síndrome. Uma determinada síndrome psicológica classificada, então, pode receber o nome de transtorno mental[12].

É importante deixar claro, contudo, que esses sistemas de classificação não são recortes reais da vida. Eles são somente modelos para auxiliar o profissional da área da saúde e deve ser visto como um guia. Os transtornos e distúrbios mentais não existem de fato, somente um agrupamento pragmático de manifestações que chamamos de sintomas[13].

  1. CLASSIFICAÇÃO DOS TRANSTORNOS MENTAIS PELO CID-10

Os transtornos mentais são algo que demanda a atenção permanente das autoridades públicas e internacionais, uma vez que afetam um largo contingente de pessoas. Segundo um levantamento epidemiológico feito no Brasil a partir da coleta de dados em três capitais (São Paulo, Brasília e Porto Alegre), cerca de 31 a 50% da população brasileira apresenta, durante a vida, pelo menos um episódio de transtorno mental; e cerca de 20 a 40% da população necessita, por conta desses transtornos, de algum tipo de ajuda profissional. Estudos internacionais indicam taxas parecidas de afetados por transtornos, razão por que é tão importante a correta disseminação de informação sobre esses distúrbios, a fim de esclarecer e auxiliar a população no sentido de prevenir e combater esse mal[14].

Assim sendo, a Organização Mundial de Saúde – OMS, na sua Classificação Internacional de Doenças, 10ª revisão – CID-10, reservou um capítulo especial para catalogar os Transtornos Mentais e do Comportamento, composto por 99 tipos diferentes de transtornos divididos em 11 grandes grupos, a saber:

Transtornos mentais orgânicos, inclusive os somáticos. Não se trata apenas de um distúrbio psicológico, afeta também a função cerebral. As possíveis causas desses distúrbios são irregularidades do metabolismo permanente, o envelhecimento, a doença cardiovascular, regenerativo, abuso de drogas etc. Os distúrbios mais comuns são as diversas Demências e o Delírio pelo consumo de substâncias psicoativas[15].

Transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de substâncias psicoativas. São distúrbios que nascem pelo consumo excessivo de substâncias que afetam o Sistema Nervoso Central – SNC, como o álcool e o tabaco, e geram casos de intoxicação aguda, síndrome de dependência e síndrome de abstinência.

Esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e transtornos delirantes. Também conhecidos como transtornos psicóticos, considerados distúrbios graves onde o paciente perde contato com a realidade, emite juízos falsos (delírios), podendo também apresentar alucinações (ter percepções irreais quanto à audição, visão, tato etc), distúrbios de conduta levando à impossibilidade de convívio social, além de outras formas bizarras de comportamento. A Esquizofrenia é a principal psicose[16].

Transtornos de humor (ou afetivos). São enfermidades em que existe uma alteração do humor, da energia (ânimo) e do jeito de sentir, pensar e se comportar. Acontecem como crises únicas ou cíclicas, oscilando ao longo da vida. A depressão e o transtorno bipolar são os distúrbios mais comum desse grupamento[17].

Transtornos neuróticos, transtornos relacionados ao estresse e transtornos sematoformes. As neuroses consistem naquelas alterações caracterizadas por um aumento de intensidades das “estranhezas” próprias a todo ser humano, uma amplificação das reações que até certo grau são consideradas normais. Como exemplos deste tipo de transtornos, temos as fobias, a ansiedade e o transtorno obsessivo-compulsivo. Os transtornos relacionados ao estresse referem-se às reações anormais ao estresse, como o estresse pós-traumático e o transtorno de adaptação. Os transtornos dissociativos consistem em um prejuízo das funções mentais de integração do eu. As doenças mais comuns deste tipo de distúrbio são a amnésia e a anestesia. Por fim, os transtornos sematoformes têm por principais manifestações a hipocondria e a somatização[18].

Síndromes comportamentais associadas a disfunções fisiológicas e a fatores físicos. São os transtornos alimentares ou disfunções sexuais ou do sono causados por fatores emocionais. Pode-se citar a anorexia, insônia, depressão pós-parto etc.

Transtornos da personalidade e do comportamento adulto. Esses transtornos aparecem quando os traços da personalidade, o famoso “jeitão de ser”, são muito inflexíveis e mal ajustados, ou seja, prejudicam a adaptação do indivíduo, causando sofrimento e incomodação. Os mais comuns são: transtorno de personalidade passivo-agressiva, transtorno de personalidade narcisística[19].

Retardo mental. É uma condição, geralmente irreversível, caracterizada por uma capacidade intelectual inferior à normal, com dificuldades de aprendizado e adaptação social. São classificados como leve, moderado, grave ou profundo[20].

Transtornos do desenvolvimento psicológico. São os transtornos relacionados à linguagem e ao desenvolvimento motor.

Transtornos de comportamento e transtornos emocionais que aparecem habitualmente durante a infância e a adolescência. São aqueles que surgem especialmente durante a infância e a adolescência, em virtude das características e especificidades destas épocas de desenvolvimento da pessoa. Citam-se: transtorno hipercinéticos, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, distúrbios de conduta, transtornos emocionais.

E finalizando, oTranstorno mental não especificado.

REFERÊNCIAS

De assis, Pablo. Um breve manual dos transtornos mentais

Associação Americana de Psiquiatria. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, p. 20.

Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais

De assis, Pablo. Um breve manual dos transtornos mentais

O que é transtorno mental orgânico? Artigo encontrado no sítio http://sulla-salute.com/saude/saude-mental/transtorno-mental-organico.php

O que são psicoses? Artigo encontrado no sítio http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=289

Perguntas frequentes. Artigo encontrado no sítio http://www.abrata.org.br/new/oqueE/faq.aspx

Transtornos neuróticos. Artigo encontrado no sítio http://www.litura.com.br/curso_repositorio/6___transtornos_neuroticos_pdf_1.pdf

Transtornos de personalidade. Artigo encontrado no sítio https://www.abcdasaude.com.br/psiquiatria/transtornos-de-personalidade

Retardo mental. Artigo encontrado no sítio https://www.tuasaude.com/retardo-mental/

Autor: Euclides de Almeida Silva – Diretor Do Instituto Namaskar – Parapsicologia Clínica Integrativa e Constelação Familiar Sistêmica.

Revisor: Euclides de Almeida Silva Filho.

[1] De assis, Pablo. Um breve manual dos transtornos mentais, p. 2.

[2]De assis, Pablo. Um breve manual dos transtornos mentais, p. 2.

[3]De assis, Pablo. Um breve manual dos transtornos mentais, p. 2.

[4]De assis, Pablo. Um breve manual dos transtornos mentais, p. 2.

[5]De assis, Pablo. Um breve manual dos transtornos mentais, p. 3.

[6]De assis, Pablo. Um breve manual dos transtornos mentais, p. 3.

[7] Associação Americana de Psiquiatria. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, p. 20.

[8]Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais, p. 27.

[9]Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais, p. 27.

[10]Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais, p. 28.

[11]Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais, p. 76.

[12]De assis, Pablo. Um breve manual dos transtornos mentais, p. 4.

[13]De assis, Pablo. Um breve manual dos transtornos mentais, p. 4.

[14]Dalgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais, p. 302.

[15] O que é transtorno mental orgânico? Artigo encontrado no sítio http://sulla-salute.com/saude/saude-mental/transtorno-mental-organico.php

[16] O que são psicoses? Artigo encontrado no sítio http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=289

[17] Perguntas frequentes. Artigo encontrado no sítio http://www.abrata.org.br/new/oqueE/faq.aspx

[18]Transtornos neuróticos. Artigo encontrado no sítio http://www.litura.com.br/curso_repositorio/6___transtornos_neuroticos_pdf_1.pdf

[19] Transtornos de personalidade. Artigo encontrado no sítio https://www.abcdasaude.com.br/psiquiatria/transtornos-de-personalidade

[20] Retardo mental. Artigo encontrado no sítio https://www.tuasaude.com/retardo-mental/

Autor: namaskar

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