Transtorno Bipolar

O transtorno bipolar é um transtorno mental caracterizado pela oscilação do humor entre os dois polos da mania e da depressão. Trata-se de um transtorno crônico, ou seja, sem cura, mas que pode ser devidamente controlado se submetido a tratamento adequado. É classificado perante o CID-10, na seção F-30 a F-39.

O mesmo CID-10 conceitua o transtorno bipolar da seguinte forma: “Transtornos nos quais a perturbação fundamental é uma alteração do humor ou do afeto, no sentido de uma depressão (com ou sem ansiedade associada) ou de uma elação. A alteração do humor em geral se acompanha de uma modificação do nível global de atividade, e a maioria dos outros sintomas são quer secundários a estas alterações do humor e da atividade, quer facilmente compreensíveis no contexto destas alterações. A maioria destes transtornos tendem a ser recorrentes e a ocorrência dos episódios individuais pode frequentemente estar relacionada com situações ou fatos estressantes.”

Cabe aqui, suscintamente, fazer uma diferenciação entre temperamento e caráter.

O temperamento, também conhecido como gênio, está ligado a sensações e motivações básicas e automáticas da pessoa no âmbito emocional. É herdado geneticamente e regulado biologicamente e pode ser observado nos primeiros anos de vida. O temperamento define o que mais naturalmente se salienta no mundo para cada um e influencia os tipos de experiências em que nos envolvemos e como reagimos instintivamente a elas[1].

O caráter, por sua vez, tem a ver com as experiências e modelos que formam nossas memórias e padrões psicológicos. É aquilo que nos é passado por meio das experiências vividas ao longo da vida, tendo pouca relação com a genética. A junção entre caráter e temperamento dá forma à personalidade[2].

O termo bipolar expressa os dois polos de humor ou de estados afetivos que se alternam nesse transtorno: a depressão e seu oposto, a hipomania ou a mania, dependendo da gravidade, cujas manifestações são a euforia, energia exagerada, grandiosidade, aceleração e uma sensação de prazer e uma sensação de prazer intenso ou um estado altamente irritável ou agressivo. Várias outras áreas são afetadas nesse estado alterado de humor, como sono, apetite, atividade motora, atenção e concentração, mas a essência está no estado geral do humor, ou seja, no modo como a pessoa se sente[3].

O transtorno de humor bipolar deve ser bem diferenciado do transtorno de humor unipolar. Muitos bipolares têm períodos depressivos e ansiosos muito mais marcantes e presentes do que os de elevação de humor, e por isso acabam sendo confundidos com unipolares[4].

O estado de humor normal deve flutuar entre os diversos estados de alegria, tristeza, ansiedade e raiva. Saudável é a variação de humor de acordo com a situação, com intensidade e duração corretas, apesar do correto ser relativo. O transtorno de humor começa quando algo no seu ajuste sai do prumo, como um instrumento que desafina, produzindo respostas de maneira desproporcional em intensidade e/ou duração, ou até mesmo mudanças no humor sem o estímulo necessário para ocorrerem na maioria das pessoas[5].

Enquanto cerca de 1% da população é bipolar tipo I, em torno de 6 a 8% manifestam uma das formas leves do transtorno (II, III e misto) durante a vida. Quanto maior for o número do tipo do transtorno bipolar, mais leve ele será. Os bipolares têm a chance de tirar a vida 10 a 20 vezes maior do que uma pessoa sadia[6].

A ideia de que só existem dois polos do humor não é verdadeira, ou seja, o humor não varia apenas entre tristeza/depressão e alegria/euforia. Uma pessoa pode estar ansiosa, irritável, agitada ou entediada, por exemplo. Outro parâmetro importante está na velocidade: o humor pode ser acelerado/hiperativo ou lentificado/apático[7].

Desta forma, podemos classificar a gradação do humor entre os dois polos opostos da seguinte forma: eutimia, que é o humor estável sem nenhuma alteração desproporcional; mania, hipomania e hipertimia; e depressão, hipotimia e distimia.

A mania é o mesmo que euforia, que é o mesmo da tal alegria exagerada. É tanta energia dentro de si que colocar tudo isso para fora é mais que uma necessidade, é um desejo de alívio a tantos pensamentos que são rápidos demais para que eles os controle. A hipomania é um estágio mais leve nos sintomas do que a mania, embora ainda pode ser considerada grave. A hipertimia, por sua vez, é mais leve que as duas situações, sendo praticamente inofensiva quanto aos sintomas[8].

A depressão representa a gradação de humor para “baixo” mais significativa, apresentando o estado de tristeza mais alto, afetando a capacidade de funcionamento social, pessoal e profissional. Os sintomas da depressão são muito variados, passando pelos pensamentos negativos até as alterações da sensação corporal como dores e enjoos. A hipotimia e a distimia são estágios mais leves que a depressão, sendo a hipotimia mais grave do que a distimia[9].

A Bipolaridade Tipo I, também conhecida como Bipolaridade Clássica, é de incidência mais rara, porém é uma das de maior gravidade, perdendo apenas para a de Tipo Misto. Objetivamente, o Tipo I da doença é caracterizado por crises de depressão e mania alternadamente. Essa alternância de humor não tem regras, isto é, não podemos precisar quando e quanto tempo o paciente será depressivo ou maníaco[10].

A Bipolaridade Tipo II o paciente irá sofrer de depressão e de hipomania no outro extremo. Hipomania, como visto, é o grau imediatamente mais leve que a mania. É muito complexo diagnosticar este Tipo porque o nível de humor alterado – hipomania – muitas vezes é quase imperceptível. Também é comum esses bipolares passarem mais tempo deprimidos do que hipomaníacos[11].

A Bipolaridade Tipo III não está incluso nas classificações internacionais de doença, mas é consenso entre os médicos de que ele exista e tenha suas peculiaridades. Este Tipo irá ocorrer em pacientes que chegam ao estado de hipomania ou até mania por indução ou pelo resultado de utilização de antidepressivos ou substâncias psicoestimulantes. Aqui, o bipolar somente terá seu humor alterado se fizer uso de substâncias. A estabilização ocorrerá com a retirada da substância e, em alguns casos, com a utilização de algum estabilizador de humor[12].

Por fim, a Bipolaridade de Tipo Misto apresenta-se como o mais grave dos transtornos bipolares. Aquele que sofre deste transtorno experimenta os dois polos da doença ao mesmo tempo. Quer dizer: o paciente experimente tanto sintomas de mania quanto de depressão de uma só vez, fugindo de qualquer padrão previsível de sentimentos e comportamentos. A pessoa pode estar chorando e dizendo ao mesmo tempo que nunca se sentiu melhor na vida. O risco de suicídio entre bipolares mistos é maior do que os outros tipos de bipolaridade e isoladamente maior que a da depressão maior, além do fato de que muitos deles estão envolvidos com os mais diversos vícios[13].

Os ciclos da bipolaridade têm relação com a duração de crises e alternância de estados de humor. Um Bipolar com ciclagem rápida é aquele que tem 4 ou mais crises por ano que podem ser de depressão ou (hipo) mania. Um Bipolar com ciclagem ultrarrápida apresenta 4 ou mais crises por mês. Já o Bipolar com ciclagem ultradiana tem 4 ou mais crises por dia[14].

Um paciente bipolar deve necessariamente escolher um psiquiatra, pois este é o único profissional que poderá diagnosticar corretamente o transtorno bipolar e também é o único profissional habilitado a receitar as medicações pertinentes. Além, o paciente deverá acrescentar como forma de tratamento complementar, no mínimo, a terapia[15].

O tratamento do transtorno bipolar pode envolver abordagens em vários níveis, devendo destaque a psicoeducação, a psicoterapia, farmacoterapia, a abordagem familiar e os grupos de apoio.

A psicoeducação visa a ajudar o paciente a saber o que é transtorno de humor e as características do seu tipo de transtorno particular, a aprender a identificar quando o humor está se alterando, a entender a necessidade de um tratamento, com suas vantagens e desvantagens etc[16].

A psicoterapia tem como meta, em geral, identificar padrões de pensamentos disfuncionais, achar o meio-termo, controlar a impulsividade, apontar formas mais adaptativas de se relacionar e conscientizar as razões e significados de alguns comportamentos, pensamentos e sentimentos. Ela pode ser importante para avaliar até que ponto as atividades praticadas e o estilo de vida adotado estão adequados ao temperamento, e também para identificar o que pode ser melhorado, de forma gradual e estratégica, ponderando os riscos e desenvolvendo a tolerância[17].

A farmacoterapia refere-se à utilização dos medicamentos próprios para atuar na melhora e na prevenção dos casos de depressão e mania. A principal classe de remédios utilizados são os estabilizadores de humor. Eles também tratam dos sintomas de ansiedade, irritabilidade e impulsividade, ajudando no restabelecimento do bem-estar geral e da regularidade de vida do paciente. Não causam dependência de qualquer espécie[18].

A abordagem familiar é de fundamental importância. A família precisa conhecer as implicações e os cuidados exigidos pelos transtornos de humor. É indispensável para o paciente um ambiente familiar favorável ao seu tratamento. É preciso que se crie um canal de diálogo aberto entre os amigos e familiares com o paciente sobre todos os tópicos envolvendo a doença. Com informação e amor pode-se mudar o quadro antes pintado pelo preconceito[19].

Os grupos de apoio consistem no encontro de pessoas que possuem as mesmas características para discutir as suas questões. É muito válido saber que outras pessoas passam por questões parecidas, assim como trocar experiências, compartilhar formas de solucionar problemas e explorar qualidades. Ao mesmo tempo, ganha-se muito em apoio efetivo e social.

REFERÊNCIAS

Brasil, Will. Guia Oficial do Bipolar Brasil.

Lara, Diogo. Temperamento forte e bipolaridade.

Autor: Euclides de Almeida Silva – Diretor do Instituto Namaskar – Parapsicologia Clínica Integrativa e Constelação Familiar Sistêmica.

Revisor: Euclides de Almeida Silva Filho

[1] Lara, Diogo. Temperamento forte e bipolaridade, p. 14.

[2]Lara, Diogo. Temperamento forte e bipolaridade, p. 16.

[3]Lara, Diogo. Temperamento forte e bipolaridade, p. 26.

[4]Lara, Diogo. Temperamento forte e bipolaridade, p. 27.

[5]Lara, Diogo. Temperamento forte e bipolaridade, p. 27.

[6]Lara, Diogo. Temperamento forte e bipolaridade, p. 31.

[7]Lara, Diogo. Temperamento forte e bipolaridade, p. 28.

[8]Brasil, Will. Guia Oficial do Bipolar Brasil, p. 53.

[9]Brasil, Will. Guia Oficial do Bipolar Brasil, p. 57.

[10]Brasil, Will. Guia Oficial do Bipolar Brasil, p. 28.

[11]Brasil, Will. Guia Oficial do Bipolar Brasil, p. 34.

[12]Brasil, Will. Guia Oficial do Bipolar Brasil, p. 36.

[13]Brasil, Will. Guia Oficial do Bipolar Brasil, p. 39.

[14]Brasil, Will. Guia Oficial do Bipolar Brasil, p. 42.

[15]Brasil, Will. Guia Oficial do Bipolar Brasil, p. 19.

[16]Lara, Diogo. Temperamento forte e bipolaridade, p. 78.

[17]Lara, Diogo. Temperamento forte e bipolaridade, p. 79.

[18]Lara, Diogo. Temperamento forte e bipolaridade, p. 78.

[19]Brasil, Will. Guia Oficial do Bipolar Brasil, p. 84.

Autor: namaskar

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