Hipnose

  1. Aspectos gerais

As manifestações da hipnose podem ser consideradas um fenômeno psicológico natural de ocorrência cotidiana em nossa vida, apresentando-se como atos do subconsciente, como quando, por exemplo, assistimos a um filme e nos emocionamos ou elevamos a nossa frequência cardíaca em uma cena de ação.

Experiências armazenadas em nosso cérebro também podem ser manifestadas através do subconsciente. Ao dirigir, presta-se atenção consciente no trânsito, porém se dirige de forma inconsciente. O mesmo ocorre ao andar, comer, essas ações que são articuladas diretamente pelo subconsciente, enquanto a mente consciente se ocupa com outras atividades.

A hipnose nada mais é do que um estado de concentração aumentada, no qual é possível obter uma maior capacidade de resposta à sugestão.

O termo hipnose se deve ao médico britânico James Braid (1795-1860), mas sua prática remonta a antiguidade. A evidência mais primitiva vem dos xamãs, referidos também como “doutores bruxos”, “homens de medicina”, ou “curadores”. Os xamãs, em sua maioria homens, utilizavam na hipnose cantos, sons produzidos por tambores, movimentos do corpo, danças e plantas psicoativas.

  1. O processo de hipnose

Em essência, toda hipnose é auto-hipnose. O hipnoterapeuta pode colaborar ou dirigir para o transe, mas é sempre o sujeito quem está no comando. O hipnólogo é um meio para alcançar o estado de hipnose. A técnica da hipnose é eliminar ou diminuir o lado crítico do consciente. Atuam forças mentais muito mais poderosas: as do subconsciente. As sugestões que você se dá durante a auto-hipnose têm potência muito semelhante às das suas habilidades ou hábitos[1].

O transe hipnótico, ou estado alterado da consciência (EAC), é uma faixa de atenção intensamente enfocada e concentrada que exclui os estímulos internos e externos (voz da consciência). O fenômeno hipnótico é um processo natural e que, com a prática, todos podem aprender a usar para conseguir objetivos que, de outra forma, poderiam ser muito difíceis ou impossíveis de atingir[2].

O transe se atinge enfocando a atenção, a tal ponto que se excluem todos os pensamentos e sensações físicas que podem distrair. A pessoa pode passar por cima da maioria das mensagens de seu próprio corpo e mente, tornando-se receptiva a certas ideias. A hipnose é uma atenção exagerada a tal ponto que nada lhe perturba e nem lhe tira a concentração[3].

Tanto na auto-hipnose como na hipnose clássica, o processo é composto de quatro fases: indução, aprofundamento do transe, sugestão pós-hipnótica e saída.

INDUÇÃO é o método usado para levar ao estado alterado de consciência. Pode ser levada a efeito através do sono, de substâncias narcóticas, do visual, da sonorização, da magnetização e da verbalização. As induções também podem ser classificadas em: imaginárias, sendo aquelas que se usam da imaginação para gerar o estado de transe; sensitivas, as que se valem da visão, audição e tato para gerar um estado de transe; as autoritárias ou paternais, em que tem por mecanismo uma ordem em tom autoritário para gerar o transe[4].

O APROFUNDAMENTO DO TRANSE visa levar o sujeito a um nível mais profundo de transe hipnótico, levando sempre a uma sensação de descida ou viagem para dentro do próprio sujeito[5].

As SUGESTÕES PÓS-HIPNÓTICAS são apresentadas ao sujeito durante a hipnose, associadas a um fator (sinal) desencadeador. Ela deve ser criada com base nos seguintes critérios: a atenção da pessoa deverá estar focada naquilo que se lhe será dito; ela deverá estar feliz no momento em que se lhe transmite a sugestão; sua motivação terá que estar acentuada para que aceite a sugestão; a sugestão será específica para cada situação; a sugestão será lógica em relação à situação vivida ou tratada; a sugestão estará focada no objetivo; a sugestão possa ser percebida pelo indivíduo nos seus cinco sentidos, sendo repetidas entre seis e dez vezes em cada sessão; pela associação de uma metáfora, aumenta-se a eficácia da sugestão pós-hipnótica[6].

Na SAÍDA, o paciente sai do transe, fechando o ciclo hipnótico.

3.Os fenômenos hipnóticos

Os fenômenos hipnóticos são as percepções experenciadas pelo sujeito durante o transe. Eles sempre aparecem neste momento, servindo de garantia aos hipnotizadores principiantes de que o sujeito entrou em transe. São classificados em: Rapport, Catalepsia, Dissociação, Analgesia, Anestesia, Regressão de idade, Progressão de idade, Distorção do tempo, Alucinações positivas e negativas, Amnésia, Hipermnésia e Atividades Ideomotoras e Ideosensórias.

RAPPORT. É o estabelecimento de uma aliança terapêutica, a partir do momento em que a pessoa passa a confiar no seu hipnotizador, favorecendo a tranquilidade de que ela necessita para entrar no transe.

CATALEPSIA. É a sensação de ficar imobilizado, mais pesado e sem vontade de se mover, caracterizando-se por um estado de tonicidade muscular no qual o sujeito fica fixo numa posição por um período indefinido de tempo.

DISSOCIAÇÃO. É a capacidade de dissociar a mente consciente da mente inconsciente, como se surgissem duas pessoas em uma só, em que a parte consciente segue o que é pedido pelo hipnotizador, enquanto a parte inconsciente vive a realidade vinda de seu interior.

ANALGESIA. É o formigamento do corpo. Você o sente, mas não sente dor. É possível até mesmo fazer cirurgia quando se desenvolve este fenômeno de transe.

ANESTESIA. É sensação de não sentir uma parte definida do seu corpo.

REGRESSÃO DE IDADE. São memórias, pensamentos, imagens, num nível de recordação, ou pode aparecer como uma revivificação, em que a pessoa fala e age como se fosse uma criança, ou se tivesse a idade determinada daquele fato.

PROGRESSÃO DE IDADE. Da mesma forma em que há a regressão, há a progressão, em que uma pessoa pode se ver no futuro realizando as coisas que deseja ou necessita fazer.

DISTORÇÃO DO TEMPO. Ocorre uma modificação temporal, em que seu tempo interno pode variar em relação ao tempo cronológico do relógio. O inconsciente não é analítico e nem lógico. Sensações similares acontecem no cotidiano quando temos a impressão de aqueles fatos prazerosos foram muito rápidos ou que aquele momento entediante custou demais a passar.

ALUCINAÇÕES POSITIVAS E NEGATIVAS. Alucinações positivas são aqueles sensórios da percepção dos cinco sentidos que aparecem durante o transe. Alucinações negativas ocorrem pela retirada de sensações e percepções.

AMNÉSIA. É o fenômeno que pode ocorrer total ou parcialmente. Amnésia é total quando você não se lembra de nada do aconteceu durante o transe. Amnésia parcial é quando você se lembra de partes do transe.

HIPERMNÉSIA. É a capacidade de lembrar aguçadamente uma situação específica.

ATIVIDADES IDEOMOTORAS E IDEOSENSÓRIAS. Estão ligadas à capacidade de o sujeito responder automaticamente através de sinais ideomotores (dedos, mãos, pernas) ou ideosensórios (percepção sensória associada a uma ideia).

  1. Tipos de hipnose

Além da auto-hipnose, quando a pessoa pode aplicar em si mesmo desde que tenha conhecimento de como fazer, há também a hipnose clássica e a hipnose naturalista ou ericksoniana, estas feitas sob o intermédio de um hipnotizador.

HIPNOSE CLÁSSICA adveio diretamente do trabalho empreendido por James Braid. A indução de transe formal é associada às sugestões diretas. Pode ser curta ou demorada, mas seu itinerário é preestabelecido.

HIPNOSE NATURALISTA OU ERICKSONIANA é oriunda do trabalho de MILTON ERICKSON (1901-1980), psiquiatra americano, de uma grande trajetória de vida e vasta experiência com psicoterapias. Percebeu ele a natureza multidimensional do transe, que se modifica exponencialmente de pessoa a pessoa. Argumenta que “deve-se reconhecer que uma descrição, não importa quão precisa ou completa seja, não irá substituir uma experiência real, nem tampouco pode ser aplicada a todos os pacientes[7].

O naturalismo hipnótico consiste, assim, em fazer um tipo exclusivo de transe para cada cliente. Mesmo que seguindo uma forma de indução padronizada, sua moldagem varia de acordo com um critério de avaliação de como cada pessoa é, como cria seu sintoma, como é a sua resistência. Utiliza-se coisas do próprio cliente para colocá-lo em transe, que é visto como uma experiência natural de todas as pessoas. Erickson trabalhava para colocar seu paciente conduzindo a sua própria cura, utilizando as idiossincracias do paciente e sugestionando-o através delas a buscar seus recursos também idiossincráticos. A terapia evolui dentro do paciente, e as mudança ocorridas serão mérito dele[8].

Trata-se de uma ferramenta de trabalho que faz o sujeito experienciar e eliciar seus recursos internos como caminho para a cura de seus problemas. Esta terapia é baseada em 3Ms e 2Rs: Motivar, Metaforizar, Mover, Responsividade, Recursos[9].

MOTIVAR. É essencial na hipnoterapia naturalista, sem o qual não é possível que se desenvolva o trabalho.

METÁFORA. É a linguagem mais próxima do inconsciente. Aparece tipicamente quando as palavras não parecem fortes o bastante ou precisas o suficiente para exprimir a experiência. Procura-se atingir o cliente nos dois níveis de consciência contando estórias, piadas, casos. São como pontes no tratamento que viabilizam uma ressignificação e uma saída para os problemas.

MOVER. É promover as mudanças desejadas pelo cliente, pela terapia estratégica.

RESPONSIVIDADE. Trata de o terapeuta observar as mínimas pistas deixadas pelo cliente a fim de orientar o seu trabalho.

RECURSOS. A ressignificação da hipnose deve ser direcionada à riqueza interior do paciente.

  1. Estudos científicos que demonstram a eficácia da hipnose

Diversos estudos científicos têm sido conduzidos, no Brasil e no exterior, com o objetivo de demonstrar a eficácia da hipnose para os mais diversos tipos de tratamentos.

No rol de enfermidades possíveis de serem tratadas com a hipnose, destacam-se a dor crônica, transtorno do pânico, asma, tensão pré-menstrual, enxaqueca, analgesia em procedimentos dentários, alergias, problemas digestivos de fundo nervoso, fobias, insônia e vício em nicotina.

Um estudo na Universidade de Stanford foi conduzido com o objetivo de verificar se oito crianças, previamente diagnosticadas com epilepsia, realmente tinham a doença ou suas manifestações decorriam de outros fatores, como estresse profundo.

Os cientistas levaram as crianças a um estado hipnótico e as fizeram imaginar que estavam tendo um ataque de epilepsia. Enquanto isso, elas eram monitoradas por aparelhos de exame de imagem. Em todos os casos, as áreas cerebrais ativadas durante o transe não eram aquelas relacionadas à epilepsia, chegando à conclusão de que as crianças não tinham a doença.

Outro estudo coordenado por médicos do Massachusetts General Hospital revelou que pacientes hospitalizados com doenças cardíacas submetidos apenas a uma sessão de hipnose tinham maiores chances de vencer a luta contra o tabagismo após seis meses do que aqueles que usavam adesivos para repor a nicotina.

No Beth Israel Deaconess Medical Center e na Faculdade de Medicina de Harvard, pesquisadores constataram que a técnica tornou mais confortável e menos dolorosa a realização de biópsia de nódulos de mamas.

No Brasil, os Conselhos Federais de Medicina, Psicologia, Odontologia e Fisioterapia recomendam o uso das técnicas hipnoterápicas como alternativas terapêuticas e coadjuvantes aos tratamentos convencionais.

Já em países como a França e a Bélgica, os anestesistas estão oferecendo a hipnossedação – que combina hipnose com a anestesia local – como alternativa à anestesia geral em cirurgias.

As possibilidades terapêuticas da hipnose são praticamente infinitas, tendo a ciência muito a contribuir com o desenvolvimento da hipnoterapia.

REFERÊNCIAS

BAUER, Sofia F. M. Hipnoterapia Ericksoniana passo a passo.

BONEZZI, José e MAURO, José. Apostila de formação em hipnose.

PUENTES, Fabio. Auto-hipnose – Manual do usuário.

AUTOR: Euclides de Almeida Silva

REVISOR: Euclides de Almeida Silva

[1]PUENTES, Fabio. Auto-hipnose – Manual do usuário, p. 37.

[2]PUENTES, Fabio. Auto-hipnose – Manual do usuário, p. 44.

[3]PUENTES, Fabio. Auto-hipnose – Manual do usuário, p. 69.

[4]BONEZZI, José e MAURO, José. Apostila de formação em hipnose, p. 17.

[5]BONEZZI, José e MAURO, José. Apostila de formação em hipnose, p. 17.

[6] BONEZZI, José e MAURO, José. Apostila de formação em hipnose, p. 20.

[7]BAUER, Sofia F. M. Hipnoteriaericksoniana passo a passo, p. 29.

[8]BAUER, Sofia F. M. Hipnoteriaericksoniana passo a passo, p. 56

[9]BAUER, Sofia F. M. Hipnoteriaericksoniana passo a passo, p. 56

Autor: namaskar

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