Depressão

A Depressão é o transtorno mental dos mais famosos e enigmáticos. De origem muito remota, atingiu contemporaneamente o ápice de sua incidência, vindo a ser chamada, inclusive, como o “mal do século”. Sua disseminação em todas as faixas etárias e classes sociais tem preocupado médicos, governos e organizações internacionais, levando-a a adquirir uma categoria própria na Classificação Internacional de Doenças – CID10, código F33 – Transtorno Depressivo Recorrente.

Com o intuito de se fazer um breve histórico, registra-se que os gregos antigos associavam a depressão com o excesso de bile negra no organismo, um fluído corporal que determinava o temperamento humano. Já Hipócrates, no século V antes de Cristo, já conhecia e definia a depressão com a denominação de melancolia, caracterizando-a como uma afecção sem febre, um episódio triste sem razão aparente[1].

O advento da Idade Média (século V ao século XV) representou a ascensão do Cristianismo como força política e religiosa do Estado, o que modificou completamente a forma pela qual as doenças mentais eram vistas. O sobrenatural, a superstição e o misticismo ocuparam o lugar da medicina tradicional. Os tratamentos psicofarmacológicos entraram em conflito com o paradigma da Igreja e passaram a ser utilizados cada vez menos. A depressão, assim denominada melancolia, sugeria a ausência de alegria ante o conhecimento certo do amor e da misericórdia divina, simbolizando um afastamento de tudo o que era sagrado[2].

Foi no século V que a depressão foi denominada por Cassiano como o demônio do meio-dia. Segundo ele, outros pecados podem assolar a noite, mas esse, audacioso, consome dia e noite. O tratamento sugerido foi colocar o melancólico para realizar trabalhos manuais afastado dos demais[3].

Na Idade Modera (século XV até o século XIX), a melancolia foi glamourizada. Vista como uma doença e uma qualidade inerente a um tipo de personalidade, indicava profundidade. No século XVII, a palavra depressão passa a ser utilizada pela literatura inglesa. O reconhecimento da dicotomia entre corpo e mente (dualismo cartesiano) causa uma enorme mudança no arcabouço da depressão. A partir daí, surgem questionamentos sobre a relação do corpo e da mente na depressão[4].

Já na Idade Contemporânea (século XX até os dias atuais), os avanços e descobertas em psicopatologia, farmacologia, anatomia patológica, neurologia e genética possibilitaram que a psiquiatria se consolidasse e adquirisse fundamentação científica para os conhecimentos oriundos da prática clínica, da observação e da experiência. Freud, em 1917, escreve seu livro Luto e Melancolia, texto no qual afirma que a melancolia é uma forma de luto e que surge de uma sensação de perda da libido. Emil Kraepelin, em seu Compêndio de Psiquiatria, publicado em 1883, separou a depressão em três categoria, da mais suave à mais grave, permitindo uma relação entre elas[5].

Na década de 1950, os antidepressivos foram descobertos, ocasionando um avanço para o tratamento da depressão. Os anos 90 foram denominados de a década do cérebro, em virtudes dos progressos científicos ocorridos em torno da compreensão e tratamento das enfermidades mentais. No início do século XXI, a depressão é, com algumas exceções, considerada doença mental, catalogada na Classificação Internacional de Doenças (CID) e no Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM)[6].

A depressão é um mal do corpo que aumentou muito recentemente por motivos bastantes específicos. Vulnerabilidades que teriam permanecido indetectáveis numa era anterior agora florescem em doenças clinicamente maduras. O ritmo da vida, o caos tecnológico, a solidão endêmica, a alienação das pessoas, o colapso da estrutura familiar, o fracasso dos sistemas de crença (religioso, moral, político, social – qualquer coisa que parecia outrora dar sentido e significado à vida) têm sido catastróficos[7].

Segundo dados da OMS divulgados em 2014, a depressão atinge 7% da população mundial – algo em torno de 400 milhões de pessoas. Aponta-se que, em 2010, os custos diretos e indiretos da depressão eram estimados em U$ 800 bilhões no mundo todo, sendo que, segundo previsões, esse custo deve mais que dobrar nos próximos 20 anos. Em média, um depressivo perde oito dias de trabalho por mês, contra apenas dois da população saudável. O mal atinge principalmente as mulheres, numa proporção de dois para um em relação aos homens[8].

A probabilidade de uma pessoa que já teve depressão apresentar o segundo episódio é de 35%, o terceiro é de 65% e o quarto episódio tem 90% de chance de acontecer. Pesquisadores alertam para o fato de que cerca de 80% dos deprimidos têm ideação suicida e entre 10 a 15% das pessoas com depressão põem fim à própria vida[9].

Entre as pessoas que têm maior probabilidade de vir a sofrer depressão, estão aquelas que: já passaram por episódios depressivos anteriores; possuem familiares com histórico de depressão; apresentam dificuldades de relacionamento; são vítimas de discriminação social; estão doentes; mulheres nos 18 meses após o parto; são usuários de álcool; são usuários de drogas; são portadoras de outros transtornos mentais[10].

O Manual de Diagnóstico e Estatística de Perturbações Mentais define a depressão como sendo um estado emocional com retardamento nos processos psicomotores e de raciocínio, reações emocionais depressivas, sentimentos de culpa ou críticas e ilusões de indignidade[11].

O transtorno depressivo possui várias categorias de sintomas. Os sintomas afetivos incluem o desalento, a falta de autoestima, perda de gratificação, perda de vínculos, períodos de choro e perdas de reação de alegria. O sintoma de motivação é a perda de motivação para executar uma série de atividades, gerando baixo nível de atividades e desejo de suicídio. Os sintomas cognitivos são a baixa autoavaliação, expectativas negativas, culpar-se a si mesmo e criticar-se, indecisão e autoimagem distorcida. Como sintomas fisiológicos, tem-se a perda do apetite e do interesse sexual, distúrbios de sono e fadiga. Por fim, os sintomas comportamentais são os casos de passividade, evitação e déficits sociais[12].

É comum observar a depressão coexistindo com outros transtornos como o de ansiedade, alimentares, de personalidade e de déficit de atenção. Não é fácil determinar qual é a relação entre a depressão e esses transtornos, em função das dificuldades de se determinar qual surgiu primeiro e de que forma um influencia o outro. Pesquisas indicam que 20% dos casos de alcoolismo e drogadicação estão associados a um histórico de depressão. Muitas pessoas buscam o álcool e as drogas durante episódios depressivos, mas também tais substâncias interferem na atividade dos neurotransmissores, provocando ou agravando a depressão[13].

Classificam-se as causas que levam à depressão em endógenas, que são aquelas vinculadas a fatores orgânicos, e exógenas, aquelas vinculadas com fatores psicológicos envolvidos no transtorno. Médicos e psicólogos hoje acreditam que, nos transtornos depressivos, normalmente coexistem fatores psicológicos e orgânicos. Acredita-se numa complexa interação entre esses fatores, podendo haver, em alguns casos, a prevalência de um dos dois. As causas endógenas e exógenas, todavia, não excluem situações sociais, econômicas e outras que provêm do mundo exterior, já que, como abordado neste artigo, o contexto contemporâneo teve um importante papel na epidemia da depressão, vez que em outras épocas sua incidência era bem menor[14].

Dentre as inúmeras classificações a respeito dos tipos de depressão, o Manual de Diagnóstico e Estatística de Perturbações Mentais classifica os transtornos depressivos em: transtorno disruptivo da desregulação do humor, transtorno depressivo maior, transtorno depressivo consistente (distimia), transtorno disfórico pré-menstrual, transtorno depressivo induzido por substância/medicamento, transtorno depressivo devido a outra condição médica, outro transtorno depressivo especificado e transtorno depressivo não especificado. Já o CID-10 elenca os seus transtornos depressivos em: transtorno depressivo recorrente – episódio atual leve, episódio atual moderado, episódio atual grave sem sintomas psicóticos, episódio atual grave com sintomas psicóticos, atualmente em remissão –, outros transtornos depressivos recorrentes e transtorno depressivo recorrente sem especificação.

Os recursos terapêuticos para o tratamento da depressão são bastante abrangentes, que vão desde os mais tradicionais, como a psicoterapia e o tratamento medicamentoso até os tratamentos complementares, como a meditação e o exercício físico.

A psicoterapia é o tratamento que tem como foco as questões psicológicas. A terapia pode ser feita individualmente ou em grupo. Existem várias abordagens psicológicas, ou seja, diferentes olhares sobre o funcionamento da mente humana.

As vertentes que consideram a presença de conteúdos inconscientes na estruturação de transtornos mentais têm suas raízes na psicanálise freudiana. A atuação do psicoterapeuta nesse contexto implica em auxiliar o paciente a desvendar conteúdos inconscientes responsáveis por seus comportamentos[15].

Entre as abordagens que dão mais ênfase às questões cognitivas, destaca-se a terapia cognitivo-comportamental. Nesse enfoque, a depressão tem como base as cognições (pensamentos) negativos que o paciente tem em relação a si, ao mundo e ao futuro. A atuação do profissional consiste em ajudar o paciente a mudar o seu sistema de crenças. O processo ocorre em três etapas: a identificação das cognições negativas, a substituição das cognições negativas por outras mais realistas e positivas. Trabalha-se com a ressignificação dos fatos e a alteração das pré-concepções desenvolvidas. Ainda dentre do campo cognitivo, encontramos a programação neuro-linguística (PNL). Esta técnica consiste na programação de objetivos e criação de estratégias que envolvam a autoestima, a comunicação, a criatividade e a flexibilidade, como recursos que viabilizarão o alcance dos resultados desejados[16].

Acredita-se que uma das causas fisiológicas da depressão é a falha na transmissão sináptica, isto é, uma descontinuidade na transmissão de estímulos nervosos, que se processa entre um neurônio e outro num espaço denominado sinapse. Pois os fármacos comercializados atualmente têm como foco os neurotransmissores. Não se sabe ao certo como atuam os antidepressivos, mas sabe-se que em geral apresentam 60 a 80% de chances de trazer resultados satisfatórios ao paciente. Esses fármacos têm como características não causarem dependência química, além da capacidade que eles possuem de produzir a remissão ou minimização de sintomas num tempo relativamente menor do que aquele observado nos processos psicoterápicos. Os aspectos desfavoráveis dos fármacos envolvem o custo relativamente alto, o prolongado tempo de tratamento e os efeitos colaterais[17].

A terapia eletroconvulsiva se apresenta como o tratamento mais radical dentre as intervenções médicas da depressão. Utiliza-se da corrente elétrica para levar o paciente a uma convulsão, com o intuito de remissão dos sintomas depressivos, sendo indicada principalmente nos casos mais graves, com risco de suicídio, quando o paciente não tolera os efeitos colaterais dos antidepressivos ou quando não responde à psicoterapia. Ela é realizada com o uso de anestesia e relaxante muscular. O tratamento geralmente requer de seis a doze sessões, sendo realizada duas ou três por semana. Dentre as reações indesejadas, está a amnésia retrógrada, em que o paciente pode perder a memória dos eventos imediatamente anteriores à sessão a eventos mais distantes, dependendo da reação. Apesar dos riscos, a taxa de sucesso da terapia eletroconvulsiva é de 80%[18].

Os tratamentos complementares nunca podem ser subestimados, pois atuam tanto na prevenção quanto na cura da depressão. Uma alimentação saudável traz benefícios para o corpo e para a mente. A dieta deve estar focada na ingestão diversificada de todos os nutrientes responsáveis por uma boa regulação do corpo, assim como devem ser evitados os alimentos não saudáveis e os hábitos alimentares compulsivos.

Os medicamentos fitoterápicos são obtidos a partir de ervas que produzem propriedades medicinais que podem ser muito úteis no tratamento de patologias e no equilíbrio corporal. As substâncias fitoterápicas mais comumente utilizadas no tratamento da depressão são: Erva de São João, Valeriana, Kava-Kava, Damiana, Ginseng, GinkoBolba e Mulungu[19].

A atividade física bem orientada é extremamente benéfica à sáude física e mental. Ela produz reflexos no campo emocional pela produção de endorfina e feniletilamina, substâncias químicas cerebrais relacionadas ao bem-estar. Pesquisas revelam que pessoas que praticam atividade física e tomam medicamento apresentam melhores resultados do que só aquelas que fazem uso do medicamento. Destaca-se, nessa seara, a realização de trabalho corporal para a correção da postura e os exercícios de alongamento.

Dentre outras medidas complementares para a depressão, é relevante citar, ainda que suscintamente, os florais de bach, reiki, acupuntura, shiatsu, meditação, respiração, cuidados com a aparência e com o estilo de vida, a busca pela espiritualidade e pelo sentido da vida, trabalho social voluntário, contato com a natureza, além, claro, da combinação de vários desses recursos associados.

Ante a gravíssima expansão da epidemia de depressão nas últimas décadas, é crível que nos indignemos e busquemos soluções para reverter tal situação, pois está claro que não haverá horizonte de melhora sem a mobilização ativa das pessoas para o combate desse mal. Neste ponto, a prevenção é mais importante até do que a cura. Pequenas atitudes devem ser tomadas em todas as frentes para diminuir o nível de poluição socioemocional. Temos que retomar valores, buscar a fé e aumentar a atenção e conscientização das pessoas sobre a saúde mental.

REFERÊNCIAS

Depressão já é a doença mais incapacitante, afirma OMS. Artigo publicado no sítio http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2014/12/1563458-depressao-ja-e-a-doenca-mais-incapacitante-afirma-a-oms.shtml

Lopes, Janaina. Depressão: uma doença da contemporaneidade. Uma visão analítico-comportamental.

Machado, Ana Lúcia e Gonçales, Cintia. Depressão, o mal do século: De que século?

Solomon, Andrew. O demônio do meio-dia.

Teodoro, Wagner. Depressão: corpo, mente e alma.

Autor: Euclides de Almeida Silva – Diretor do Instituto Namaskar – Parapsicologia Clínica Integrativa e Constelação Familiar Sistêmica.

Revisor: Euclides de Almeida Silva Filho.

[1] Machado, Ana Lúcia e Gonçales, Cintia. Depressão, o mal do século: De que século?,p. 2.

[2]Machado, Ana Lúcia e Gonçales, Cintia. Depressão, o mal do século: De que século?,p. 2.

[3]Machado, Ana Lúcia e Gonçales, Cintia. Depressão, o mal do século: De que século?,p. 2.

[4]Machado, Ana Lúcia e Gonçales, Cintia. Depressão, o mal do século: De que século?,p. 2.

[5]Machado, Ana Lúcia e Gonçales, Cintia. Depressão, o mal do século: De que século?,p. 5.

[6]Machado, Ana Lúcia e Gonçales, Cintia. Depressão, o mal do século: De que século?,p. 5.

[7]Solomon, Andrew. O demônio do meio-dia, p. 30.

[8]Depressão já é a doença mais incapacitante, afirma OMS. Artigo publicado no sítio http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2014/12/1563458-depressao-ja-e-a-doenca-mais-incapacitante-afirma-a-oms.shtml

[9] Teodoro, Wagner. Depressão: corpo, mente e alma, p. 40.

[10]Teodoro, Wagner. Depressão: corpo, mente e alma, p. 40.

[11] Lopes, Janaina. Depressão: uma doença da contemporaneidade. Uma visão analítico-comportamental, p. 22.

[12]Lopes, Janaina. Depressão: uma doença da contemporaneidade. Uma visão analítico-comportamental, p. 22

[13]Teodoro, Wagner. Depressão: corpo, mente e alma, p. 60.

[14]Teodoro, Wagner. Depressão: corpo, mente e alma, p. 66.

[15]Teodoro, Wagner. Depressão: corpo, mente e alma, p. 129.

[16]Teodoro, Wagner. Depressão: corpo, mente e alma, p. 131.

[17]Teodoro, Wagner. Depressão: corpo, mente e alma, p. 136.

[18]Teodoro, Wagner. Depressão: corpo, mente e alma, p. 139.

[19]Teodoro, Wagner. Depressão: corpo, mente e alma, p. 151.

Autor: namaskar

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