CONSTELAÇÃO FAMILIAR E SISTÊMICA

22/08/2017

CONSTELAÇÃO FAMILIAR SISTÊMICA

 

            A constelação familiar sistêmica oferece a oportunidade de se compreender os esquemas de comportamento problemáticos oriundos de nossas relações familiares em seu nível mais profundo, permitindo a libertação deles, ao mesmo tempo em que se encontra a paz e a felicidade.

            Ao vir ao mundo no seio de uma família, não herdamos somente um patrimônio genético, mas sistemas de crença e esquemas de comportamento. Nossa família é um campo de energia no interior do qual nós evoluímos. A natureza de nosso campo de energia familiar é determinada pela história de nossa família, principalmente sua religião e suas crenças, em outras palavras, sua consciência. As ações generosas e altruístas de nossos pais e de nossos antepassados são saudáveis para nós, enquanto as más ações modificam o campo energético familiar, obrigando as gerações posteriores a pagar o preço[1].

            Imersos no campo energético familiar, ignoramos sua influência que permanece fora da nossa consciência. Estamos presos a comportamentos e atitudes que nos derrotam e incitam a cometer atos que não compreendemos e dos quais acabamos por nos arrepender. As constelações familiares nos ensinam que nossa família é a nossa sina. Entretanto, não estamos irremediavelmente presos a essa sina e podemos alcançar a cura. Ao compreender os mecanismos desse processo, ficamos na posse do poder de controlar o nosso comportamento a fim de evitar sofrimento para as gerações futuras[2].     

                O precursor da terapia da constelação familiar é Bert Hellinger, alemão, nascido em 1925. A fé de seus pais o preserva do nazismo. Com vinte anos, ele se prepara para se tornar padre. Trabalha como missionário na África do Sul entre os zulus por dezesseis anos, período em que foi ao mesmo tempo padre e diretor de uma escola. Depois de vinte e cinco anos como padre, ele deixa a sua congregação religiosa, volta a Alemanha, parte para uma formação em psicanálise e se casa[3].

            As influências que Hellinger sofreu foram ricas e variadas. Uma formação ecumênica somada a dinâmica de grupo no diálogo, na fenomenologia e na experiência humana marca para ele uma etapa decisiva. Ele se forma na Gestalt, na análise tradicional, na programação neurolinguística, em terapia provocativa e na terapia do abraço[4].

            Bert Hellinger se define como filósofo e é influenciado pelos trabalhos de Martin Heidegger, o que se faz sentir em todo o método da constelação familiar, tendo em vista a abordagem fenomenológica.

            Pois bem. São dois os caminhos que nos levam ao conhecimento, complementando-se um ao outro. O caminho científico é exploratório e quer abarcar uma coisa até então desconhecida, para apropriar-se e dispor dela. O caminho fenomenológico surge quando nos detemos durante o processo exploratório e dirigimos o olhar, não mais para um determinado objeto apreensível, mas para um todo. Assim, o olhar se dispõe a receber simultaneamente a diversidade com que se defronta, na medida em que só quando prescindimos das particularidades é que conseguimos expor-nos à plenitude e suportá-la. Assim, nos detemos em nosso movimento exploratório e recuamos um pouco até atingir aquele vazio que pode fazer face à plenitude e à diversidade[5].

            No caminho fenomenológico do conhecimento, expomo-nos à diversidade dos fenômenos, sem escolha e sem avaliação. Exige-se um esvaziar, tanto em relação às ideias pré-existentes quanto aos movimentos internos, seja na esfera do sentimento, da vontade ou do julgamento. A atenção é simultaneamente dirigida e não-dirigida, concentrada e vazia[6].

            A postura fenomenológica requer uma disposição atenta para agir, sem, contudo, passar ao ato. Ela nos torna extremamente capazes e prontos para a percepção. Quem a sustenta percebe, com o passar do tempo, como a diversidade presente no horizonte se dispõe em torno de um centro; de repente, reconhece uma conexão, uma ordem talvez ou o passo que leva adiante[7].

            Os pressupostos para se alcançar essa postura fenomenológica são a renúncia, a coragem e a sintonia. Por meio da RENÚNCIA, impõe-se a ausência de intenção. Quem mantém intenções, impõe a realidade algo de seu, talvez para alterá-la a partir de uma imagem preconcebida ou influenciar e convencer outras pessoas de acordo com ela, como se estivesse numa posição de superioridade face à realidade, sendo a realidade um objeto de sua própria subjetividade, não o contrário. O segundo pressuposto é a CORAGEM, pois quem teme o que a realidade traz à luz coloca uma viseira nos olhos. E quem receia o que os outros vão pensar e fazer quando diz o que percebeu fecha-se a um novo conhecimento. Já a SINTONIA decorre da ausência de intenções e de medo, porque neste ponto vislumbra-se a realidade como ela é, inclusive com o seu lado atemorizante, avassalador e terrível. Desta forma, entra-se em sintonia com a felicidade e a infelicidade, a inocência e a culpa, a saúde e a doença, a vida e a morte[8].

            O terapeuta, durante a constelação familiar, deve manter uma postura puramente fenomenológica. Isso significa que ele deve expor-se a um contexto obscuro, até que subitamente lhe venha a clareza. Por meio de deduções, jamais encontrará a solução: ela precisa ser encontrada para cada caso, tornando-se única e irrepetível. O seu pensamento deverá estar orientado para agir, perceber e olhar de uma forma totalmente diferente. Sem essa postura, sem a concordância com o que se manifesta, sem interpretações, atenuações ou exageros, o trabalho com constelações familiares fica superficial, sujeitos a desvios e destituído de força[9].

            Atualmente, as constelações atendem a outros tipos de sistema, organizações de todos os tipos, como empresas, escolas, eis que se percebeu que as leis descobertas por Hellinger atuam em todos os sistemas, não apenas o familiar. O sistema pode ser descrito como um conjunto de elementos que permanecem unidos ou vinculados em função de um interesse comum ou de forças que o permeiam[10].

            O sistema é regido pela consciência de grupo, ou Grande Consciência, que é mais ampla e está ligada a necessidades do grupo e tem como objetivo a manutenção deste. A pessoa, em sua consciência individual, é impulsionada pelas forças do grupo independente de que delas tenha alguma consciência. É necessário que se olhe para o todo, mas, na verdade, não se tem acesso à consciência de grupo, só é possível observar e perceber o efeito através de seus resultados. Nas constelações sistêmicas, é preciso deixar de lado a consciência individual e ir além, além inclusive do bem e do mal. Para sair da consciência pessoal e ir para a consciência grupal, imperativo abandonar crenças, conceitos, verdades e até mesmo a consciência pessoal[11].

            Quando a pessoa configura a sua constelação, ela entra em contato com uma imagem que em parte é fruto da sua consciência individual e outra é fruto de uma consciência maior que ela não conhece, mas que se manifesta na configuração. A partir dos movimentos que acontecem na constelação, a pessoa pode criar uma nova imagem e essa nova imagem é que atua sobre o sistema. A imagem inicial é limitada e a imagem final é ampliada[12].

            Existem forças que atuam sobre a consciência de grupo. São elas a pertinência, a hierarquia e o equilíbrio. As consequências do desrespeito a essas forças são o surgimento de doenças, conflitos, sentimentos de infelicidade, e consequentemente as gerações posteriores passam a reproduzir esses efeitos de maneira inconsciente[13].

            Segundo a PERTINÊNCIA, ninguém pode ficar de fora, excluído do sistema; todos os membros têm direito a pertencer. Quando ocorre a exclusão de um dos elementos do sistema, gerações seguintes emaranham-se com este membro, identificando-se com ele, tentando, de algum modo, reintegrá-lo. A HIERARQUIA tem a ver com a ordem nas posições, com o lugar que cada um ocupa. Quando as pessoas estão fora de seus lugares, pode-se olhar para possíveis emaranhamentos, que têm como efeito o sofrimento vivenciado, tanto na família como nas organizações. De acordo com o EQUILÍBRIO, há uma necessidade de compensação entre perdas e ganhos, dar e receber. Ele diz se há crédito ou débito com alguém. Se você deu algo, então você espera receber algo também, e se você deve algo, há uma pressão para pagar, para devolver, para quitar. Se esta troca for produtiva, efetiva, positiva, a relação será fértil e rica[14].

            O caminho para a cura ou liberação dos emaranhamentos familiares, segundo Hellinger, é o resgate do impulso primário, via de regra um impulso afetivo de natureza amorosa, em relação às pessoas da família. Ainda que este sentimento esteja profundamente reprimido, é por amor que uma pessoa se oferece em sacrifício para salvar a outro membro da família, mesmo que isso aconteça de forma totalmente inconsciente. E é justamente a frustração desses impulsos que dá origem a sentimentos de ódio e hostilidade. A grande contribuição humanística de Hellinger advém do fato de que nenhum indivíduo pode ser compreendido fora de seus relacionamentos. Isolar o indivíduo de seus vínculos é algo que o enfraquece e tira suas reais possibilidades de cura e libertação[15].

            Quando alguém monta a sua constelação, escolhendo e posicionando os representantes de si próprio e de cada membro da família, ele transmite aos representantes uma imagem especial e energética do campo relacional existente entre estas pessoas. E os representantes podem sintonizar-se ou “canalizar” os sentimentos e impulsos de cada uma destas pessoas. Este fenômeno pode ser explicado pela teoria dos campos morfogenéticos formulada por Rupert Sheldrake. Esta teoria indica que nossa atividade mental gera um campo energético que se estende além do nosso cérebro, no tempo e no espaço, promovendo vibrações que atuam como canais de comunicação de informações que podem ser captadas por vários indivíduos de um mesmo grupo[16].

            As constelações familiares podem ser feitas a nível individual ou através de grupo de trabalho. Na constelação individual, o terapeuta tem a possibilidade de assumir o papel de todos os representantes ou de confiar essa tarefa ao cliente. A constelação feita em grupo de trabalho, a mais comum, é composta por um certo número de etapas, onde são escolhidos os representantes entre os membros do grupo, desenrolando-se progressivamente até a sua solução, ou até o momento em que fica evidente que a sua solução é impossível[17].

            A primeira etapa da constelação familiar é a definição do problema. A informação que o terapeuta procura é puramente factual, o que não envolve interpretações, julgamentos e explicações. Em seguida, cabe ao cliente a escolha dos participantes para representar os membros da família. O terapeuta pede ao cliente que monte a constelação, pela disposição dos clientes no espaço e transmissão de uma orientação que dê conta das relações que uns mantêm com os outros. A colocação dos representantes em seus lugares se faz intuitivamente, sem reflexão. É na atribuição de seus lugares que a constelação emerge e que um campo de energia autônomo se cria[18].

            O processo de solução pode ocorrer de duas formas. A primeira dá-se pela intervenção do terapeuta, que pede a cada um dos representantes que lhe descreva o que aconteceu, podendo assim movê-los a fim de que eles possam se ver ou se afastar uns dos outros. Porém, quando os representantes ficam habituados a se deixar guiar pelo campo de energia, o terapeuta não intervém mais, simplesmente deixando o campo operar. Os movimentos são lentos e a energia é muito intensa, a poder levar uma constelação até a sua conclusão sem que se pronuncie uma só palavra[19].

            A solução de uma constelação dá aos seus membros a sensação de livrar-se de um peso. Traz paz e satisfação ao seio do campo de energia familiar. Existem inúmeras maneiras de deixar o papel de representante. Às vezes, eles circulam pela sala e saem para esticar as pernas. Desempenhar o papel de representante numa constelação familiar é uma experiência muito profunda, o que justifica a dificuldade em se deixar o papel. A atividade encerra-se quando os movimentos necessários foram feitos e uma solução foi encontrada. Uma boa indicação para isso é dada pelo momento em que se percebe que o campo de energia não cria mais movimentos entre os representantes[20].

            As constelações familiares permitem aos clientes descobrirem as leis que governam seu campo de energia familiar, livrando-se dos julgamentos e interpretações errôneas que lhe infringiam agruras emocionais. Como uma constelação produz seu efeito sobre o campo de energia familiar, ela toca todos os membros da família e não somente a pessoa que a montou[21].

            Uma vez introduzidos no campo de energia familiar do cliente, os representantes sentem a mesma coisa que os membros da família experimentam, sem que os clientes tenham consciência disso. Ao colocarem-se a serviço do campo de energia familiar, emoções, sentimentos os penetram e eles experimentam a dor, o sofrimento, as doenças, as necessidades, os amores, os medos, as alegrias, as tristezas daqueles que eles representam[22].

Autor:  Euclides de Almeida Silva

Revisão: Euclides de Almeida Silva Filho

 

REFERÊNCIAS

Braga, Ana Lúcia de Abreu. Psicopedagogia e constelação familiar sistêmica: um estudo de caso.

Hellinger, Bert. Ordens do amor.

Manné, Joy. As constelações familiares em sua vida diária.

Trotta, Ernani Eduardo. Constelações familiares e seu emprego em Psicoterapia Corporal.

 

 

 

           

 

[1]Manné, Joy. As constelações familiares em sua vida diária, p. 4.

[2]Manné, Joy. As constelações familiares em sua vida diária, p. 4.

[3]Manné, Joy. As constelações familiares em sua vida diária, p. 3.

[4]Manné, Joy. As constelações familiares em sua vida diária, p. 4.

 

[5]Hellinger, Bert. Ordens do amor, p. 11.

[6]Hellinger, Bert. Ordens do amor, p. 11.

[7]Hellinger, Bert. Ordens do amor, p. 11.

[8]Hellinger, Bert. Ordens do amor, p. 11.

[9]Hellinger, Bert. Ordens do amor, p. 55.

[10] Braga, Ana Lúcia de Abreu. Psicopedagogia e constelação familiar sistêmica: um estudo de caso, p. 4.

[11]Braga, Ana Lúcia de Abreu. Psicopedagogia e constelação familiar sistêmica: um estudo de caso, p. 4.

[12]Braga, Ana Lúcia de Abreu. Psicopedagogia e constelação familiar sistêmica: um estudo de caso, p. 4.

[13]Braga, Ana Lúcia de Abreu. Psicopedagogia e constelação familiar sistêmica: um estudo de caso, p. 5.

[14]Braga, Ana Lúcia de Abreu. Psicopedagogia e constelação familiar sistêmica: um estudo de caso, p. 6.

[15]Trotta, Ernani Eduardo. Constelações familiares e seu emprego em Psicoterapia Corporal, p. 5.

[16]Trotta, Ernani Eduardo. Constelações familiares e seu emprego em Psicoterapia Corporal, p. 5.

[17]Manné, Joy. As constelações familiares em sua vida diária, p. 7.

[18]Manné, Joy. As constelações familiares em sua vida diária, p. 7.

[19]Manné, Joy. As constelações familiares em sua vida diária, p. 7.

[20]Manné, Joy. As constelações familiares em sua vida diária, p. 11.

[21]Manné, Joy. As constelações familiares em sua vida diária, p. 12.

[22]Manné, Joy. As constelações familiares em sua vida diária, p. 12.